domingo, 25 de janeiro de 2015

A REGULAÇÃO E AS LINHAS MESTRAS DE AVALIAÇÃO DOS SISTEMAS EDUCATIVOS

 A avaliação: A sua função reguladora
Em Portugal vivemos o problema da avaliação pela forma que esta foi introduzida, ou seja, é o resultado de uma visão redutora dos principais agentes que reduziram a avaliação ao desempenho docente.
Se olharmos para a avaliação e auto-avaliação das escolas através de uma visão política temos de considerar que esta nasce no contexto de recomendações e diretrizes de instância supranacionais da U.E.
Segundo Rufino (2007:30), surge a necessidade de se adotar “uma perspetiva multidisciplinar e crítica, partindo de uma nova atitude técnica. Só assim se poderá desconstruir uma aparência criada pela amálgama do discurso político oficioso veiculado pelos media e aceder à aceder à compreensão dos novos problemas educacionais com que a Europa se confronta”.
Ao nível transnacional, as políticas originam instrumentos de ação pública. A avaliação das escolas deve ter como pilares referentes que aferem a qualidade, numa lógica do conhecimento. Por outro lado, ao nível nacional, a regulação administrativa desloca certas competências que anteriormente eram centrais para instâncias locais a quem delega as responsabilidades. Disponibilizando-se um conjunto de instrume ntos de avaliação dos resultados. Por fim, ao nível das escolas públicas, a auto-avaliação é vista como uma forma de regulação, realizada com base em indicadores nacionais e trans-nacionais. Desta forma, emergem inquietações pois pede-se à escola que eduque para a cidadania europeia, mas são introduzidos modelos alienígenas o que irá originar as forma/políticas de regulação nacional.
Avaliação da educação: Uma necessidade
Os governos de muitos países sendo confrontados com resultados desastrosos e com os níveis de insucesso elevados, relativos à numeracia e literacia das populações estudantis, têm evidenciado o seu interesse e preocupação nos sistemas educativos. No que respeita à eficácia da escola, quer no que toca à qualidade da própria ação docente.
Como refere Roggero (2002:38) “ A implantação do processo de avaliação das escolas constitui uma das respostas das autoridades políticas e dos responsáveis pelos sistemas educativos no sentido de melhoria da eficácia na gestão dos recursos públicos e da eficácia na gestão dos recursos públicos atribuídos à educação”.
Nos últimos tempos, a preparação dos alunos em termos de educação e de aprendizagem tem sido uma questão fundamental para a Administração, mais precisamente para a Inspeção Geral de Educação. Esta tem vindo a destacar como questões primordiais no seu programa de trabalho: o acompanhamento do sucesso dos alunos, a sua monitorização e avaliação das condições que estão a ser elaboradas em cada escola para colocar o sucesso ao alcance de todos os alunos, independentemente das variáveis do seu contexto familiar.
Desta forma, a modernização dos sistemas educativos passa a focar-se no desempenho profissional dos professores e na sua eficácia no ensino. Segundo Ramos, podemos destacar como sinais dessa modernização os seguintes: valorização crescente de uma cultura de desempenho e de medição comparativa da eficácia do corpo docente; o aumento dos mecanismos de prestação de contas aos parceiros de cada comunidade educativa; a necessidade de auto-avaliação da escola e o consequente desenvolvimento profissional; a preocupação com o sucesso escolar de todos os alunos, independentemente da sua origem social.
Olhando para as modalidades de avaliação da Educação, podemos observar que a avaliação das organizações escolares estrutura-se em duas modalidades: a avaliação externa e a avaliação interna ou auto-avaliação. Tanto a avaliação externa com a interna têm sido apresentadas como duas vertentes de uma mesma estratégia de pressão às escolas. Com o intuito de despoletar uma mais atenção à questão da aprendizagem e na redução no nível de desperdício e ineficiência do sistema educativo.
A avaliação interna afigura-se como uma importante forma de produção de conhecimento, permitindo a reflexão e aprendizagem, em conjunto, por parte dos atores envolvidos. Como processo de construção de conhecimento, a auto-avaliação das organizações escolares permite a utilização dos dados dessa mesma avaliação nos processos políticos que estas protagonizam. Assim sendo, as duas modalidades da avaliação complementam-se na promoção da eficácia das organizações escolares, tendo em vista a maximização das aprendizagens dos alunos.
A avaliação na educação deve ser entendida num sentido amplo, ou seja, esta visa a oferta formativa e os métodos de ensino mas também os financiamentos, gestão, orientação geral e a prossecução de objetivos a longo prazo. Remete-nos para noções como: direito à educação, equidade, eficiência, qualidade, entre outros. Para Afonso (2011:86), qualquer “sistema de accountability democraticamente avançado inclui a avaliação, a prestação de contas e a responsabilização, mas dentro de articulações congruentes que se referenciem ou sustentem em valores essenciais como justiça, a transparência, o direito à informação, a participação, a cidadania”.

Bibliografia:

 Afonso, A. (2011). Questões polémicas no debate sobre políticas educativas contemporâneas: o caso da accountability baseada em testes estandardizados e rankings escolares. In: De Ketele, J-M. & Alves, M.P. (Orgs).Do currículo à avaliação, da avaliação ao currículo (pp.83-101). Porto. Porto Editora.

 Ramos, C. (n.d.). Novos caminhos de avaliação de professores: tendências e estratégias.


Roggero, P. (2002). “Avaliação dos sistemas educativos nos países da união europeia: de uma necessidade problemática a uma prática complexa desejável”. In: EccoS  Rev. Cient. nº 2, v. 4, pp.31-46.

Rufino, C. (2007). Avaliação interna das escolas e circulação de políticas num espaço europeu. Sísifo: revista de ciências da educaçã, nº4.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

UMA ABORDAGEM PROMISSORA: OS SISTEMAS DE EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PARA A EUROPA DO CONHECIMENTO

É partir de “uma história dos problemas”, isto é, da forma como historicamente uma determinada realidade se transformou num problema, que poderemos imaginar novas aproximações à questão da escola.                                                         
                                                  (Michel Foucoult,1994)
A organização dos sistemas de educação e formação e os conteúdos dos programas de aprendizagem, no contexto da União Europeia são da responsabilidade dos Estados-Membros.  Em Março de 2000, O Conselho Europeu (os chefes de Estado e de Governo dos países da U.E) reconheceram que a União Europeia estava a atravessar uma enorme mudança, resultante da globalização e da economia baseada no conhecimento. Desta forma, o Conselho Europeu de Lisboa fez nascer a “Estratégia de Lisboa”, (conjunto de medidas) com o intuito de responder ao objetivo estratégico: tornar-se na economia baseada no conhecimento mais dinâmica e competitiva do mundo, capaz de garantir um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos, e com maior coesão social. Para se cumprir este objetivo teria de existir uma  transformação profunda na economia europeia, bem como estabelecer-se um programa de modernização dos sistemas de proteção social e de ensino.
Nesta sequência, a Comissão Europeia elaborou uma primeira proposta de relatório sobre quais seriam os objetivos futuros concretos dos sistemas de educação e formação, a fim de ser negociada pelos Estados-Membros. O conselho adotou um relatório final que anunciou ao Conselho Europeu de Estocolmo em Março de 2001 que estabelecia os seguintes objetivos: 1) Aumentar a qualidade e a eficácia dos sistemas de educação e de formação da U.E. 2) Facilitar o acesso de todos os sistemas de educação e formação. 3) Abrir ao mundo exterior os sistemas de educação e de formação. Este relatório foi adotado em Estocolmo, tornando-se no primeiro documento oficial que definia uma abordagem europeia abrangente e coerente no que dizia respeito às políticas nacionais de educação e formação na União Europeia. O programa de trabalho elaborado sobre os objetivos futuros dos sistemas de educação e de formação foi adotado em 14 de Fevereiro de 2002, nele encontramos as questões-chave que são necessárias abordar para que se possa cumprir os três objetivos estratégicos propostos e os treze objetivos anexos que foram acordados. Este programa focaliza-se em diversos elementos e níveis de educação e de formação, como as competências básicas, o ensino profissional e superior, dando especial relevo ao princípio da aprendizagem ao longo da vida.
A SUBDIVISÃO DOS TRÊS OBJETIVOS ESTRATÉGICOS:
1º Objetivo estratégico – Melhorar a qualidade e a eficácia dos sistemas de educação e de formação na União europeia. Subdivide-se dando origem a cinco objetivos: melhorar a educação e formação dos professores e formadores; desenvolver as competências necessárias à sociedade do conhecimento; assegurar que todos possam ter acesso às TIC; aumentar o número de pessoas que fazem cursos técnicos e científicos; otimizar a utilização de recursos.
2º Objetivo estratégico – Facilitar o acesso de todos os sistemas de educação e formação, tendo como princípio primordial a aprendizagem ao longo da vida. Subdivide-se em três objetivos: ambiente aberto de aprendizagem; tornar a aprendizagem mais atrativa; apoiar a cidadania ativa, a igualdade de oportunidades e a coesão social.
3º Objetivo estratégico – Abrir ao mundo exterior os sistemas de educação e formação. Subdivide-se em cinco objetivos: reforçar as ligações com o mundo do trabalho, a investigação e a sociedade em geral; desenvolver o espírito empresarial; melhorar a aprendizagem de línguas estrangeiras; incrementar a mobilidade e os intercâmbios; reforçar a cooperação europeia.
Posto isto, surge a necessidade de criação de um espaço europeu da educação, onde o conceito de aprendizagem ao longo da vida (diz respeito a todas as fases da vida, desde da infância até à velhice) se torna imprescindível para a competitividade da economia do conhecimento. Estabeleceu-se, então, um Quadro de Referência com oito competências:

  •  Competência de comunicação na língua materna;
  • Competência da comunicação em línguas estrangeiras;
  • Competência matemática e competências básicas em ciências e tecnologia;
  • Competência digital;
  • Competência de aprender a aprender;
  • Competências sociais e cívicas;
  • Competência de espírito de iniciativa e espírito empresarial;
  • Competências de sensibilidade e expressão culturais.
Debruçando-nos sobre o nosso país, podemos verificar que aquilo que foi realizado em cumprimento das diretrizes europeias alterou em muito pouco o nosso sistema de ensino. A educação e a formação são mais do que meros instrumentos de empregabilidade. Contribuem para o desenvolvimento pessoal do cidadão para que tenha uma vida melhor e possa desempenhar uma cidadania ativa nas sociedades democráticas que respeitem a diversidade cultural e linguística. Desempenham, também, um papel fundamental na criação da coesão social ao prevenirem a discriminação, a exclusão, o racismo e a xenofobia, bem como na promoção de valores como a tolerância e o respeito pelos direitos humanos. No entanto, surgem algumas questões que merecem ser refletidas: Estaremos nós (profissionais de educação) a conseguir formar cidadãos capazes de compreender o mundo, beneficiando e intervindo na sua evolução? Estaremos a preparar pessoas capazes de fazer uso crítico em domínios tão importantes como a vida cívica e política?
A educação ao longo da vida é uma exigência que se coloca à escola, para que cada um possa gerir a sua vida. Mas, para que este possa ser possível é necessário desenvolver mais ofertas de educação e formação formal e não formal que permitam a cada indivíduo fazer opções e direcionar o seu percurso educativo. A organização de uma sociedade rica em oportunidades de educação ao longo da vida é fundamental para existir desenvolvimento cultural e económico no nosso país. Contudo, um sistema de educação ao longo da vida só terá significado se cada ser humano encontrar nele um meio de valorização e desenvolvimento como pessoa ou cidadão!
Bibliografia:
Ramos, C. Estratégia de Lisboa-Programa de Trabalho “Educação e Formação 2010”.
Serviço das Publicações Oficiais das Comunidades Europeias (2007). Competências Essenciais para Aprendizagem ao Longo da Vida – Quadro de Referência Europeu.

domingo, 30 de novembro de 2014

OS SISTEMAS DE BLENDED LEARNING ENQUANTO DISPOSITIVOS PEDAGÓGICOS

A inovação e o pensamento divergente na educação

A inovação e o pensamento divergente os dois conceitos fundamentais nas mudanças educativas dos nossos dias. Será importante desenvolver no ser humano a criatividade ou desenvolver o pensamento crítico para chegarmos à criatividade? Pensamento divergente e criatividade complementam-se, a criatividade é um processo de se ter ideias originais, mas só com um pensamento divergente é que o ser humano consegue ver as possíveis respostas às questões, ou seja, pensar as possibilidades de... Só com este tipo de pensamento é que se pode ter um posicionamento crítico sobre as coisas e o mundo que nos rodeia! O modelo de educação tem de olhar para a verdadeira essência do ser humano com todas as suas capacidades. A educação deve ter sempre como máxima primordial a vertente humana e só depois o conhecimento. Pois, se a educação descurar a parte humana não existe efetivamente conhecimento. O conhecimento só existe quando se pensa e se reflecte sobre o mesmo. Neste sentido, a educação deve levar o ser humano a mergulhar na imensidão do mundo para que possa compreender as coisas que o rodeiam. Cada ser humano é um ser único e irrepetível!
O grande desafio imposto à educação no momento atual, encontra-se justamente, na compreensão profunda da mudança no universo do conhecimento que potencializado pela revolução tecnológica tem alterado significativamente a forma de ensinar e aprender.
Historicamente, desenvolveram-se de forma separada dois ambientes de aprendizagem: a tradicional (sala de aula presencial) e o moderno (ambiente virtual de aprendizagem), que ao longo do tempo, mutuamente se completam.

Convergência entre educação virtual e presencial

A convergência entre a educação virtual e presencial remete-nos para o conceito de Blended learning ou b-learning. Mas afinal, o que é o Blended learning? Grahm (2005:5) apresenta a seguinte definição: “O Blended learning combina a formação cara a cara com a formação mediada por computador”. Esta abordagem de ensino combina, então, o sistema presencial e a distancia, em que o professor se reúne com os alunos (em sala de aula ou através de meios tecnológicos), onde é disponibilizado a estes últimos, um conjunto de recursos materiais e atividades para o seu processo de ensino/aprendizagem. Na orientação de um processo de ensino/aprendizagem através desta modalidade, pretende-se retirar o que melhor existe na formação presencial e na formação a distância. A comunicação e a interação com os conteúdos abordados entre os intervenientes (professor/aluno) são valorizadas com os diversos meios tecnológicos disponíveis, tais como: o computador, a internet, produtos multimédia, aplicações Web, entre outros.
Como refere Grahm (2005), o b-learning tem sido utilizado com maior frequência em ambientes académicos, e como consequência deste crescendo, surgem tecnologias para se poder implementar sistemas de aprendizagem a distância, que segundo McGreal citado por Gonçalves e Rodrigues (2006), podem ser agrupadas em tecnologias da comunicação (síncrona e assíncrona), tecnologias Web (distribuição dos conteúdos) e implementação de ambientes colaborativos e ferramentas de autor (criação de aplicações multimédia). De acordo com os interesses dos alunos e da finalidade das instituições têm surgido vários cenários de aplicação.

Vantagens no uso das ferramentas tecnológicas na educação
Se na educação presencial pode-se utilizar diversos tipos de linguagem, na modalidade virtual todas podem ser utilizadas em simultâneo, proporcionando ao processo de ensino/aprendizagem um potencial enorme de comunicação e integração espaço/tempo.
A utilização das várias ferramentas tecnológicas permitem:
Ø  Fornecer documentação multimédia (texto, imagens, vídeos) para auxiliar no estudo das disciplinas.
Ø  Produzir material de apoio à aprendizagem como por exemplo: glossários, bases de dados (incluindo ou não imagens).
Ø  Motivar a interação entre os próprios alunos, através das hiperligações, disponibilização de páginas pessoais, sessões de conversação síncrona ou assíncrona.
Ø  Proporcionar informação de forma alargada e rigorosa aos alunos sobre o seu próprio progresso através de um livro de notas on-line.
O aluno tem mais liberdade de desenvolver os seus estudos (flexibilidade de horários e locais considerados presenciais), é mantida a interatividade com os professores e alunos, fortalecendo uma aprendizagem colaborativa. Num ambiente colaborativo a aprendizagem centra-se no papel ativo dos participantes, num processo de reflexão-ação, na interatividade e colaboração feita entre os envolvidos de modo a desenvolver uma aprendizagem significativa.
Assim, num modelo educacional onde a tecnologia está associada, o aluno é visto como principal sujeito e o professor como um mediador no processo de construção do conhecimento (ensino/aprendizagem). Através da operacionalização de sistemas Blended learning, a educação torna-se mais aberta, mais flexível e inclusiva.

Bibliografia

Gomes, M. (2006). E-learning e Educação on-line: contributos para princípios de Bolonha. Actas do VII colóquio sobre Questões Curriculares (III colóquio Luso-Brasileiro), CIEd.Braga.Gonçalves.
Graham, C. (2005). Introduction to Blended Learning. Blended Learning Systems – Definition, Current Trends, and Future Directions. The Handbook of Blended Learning.Chapter One.

Martins, V. (2006). B-Learning: Um caso de aprendizagem colaborativa usando a Fle3. Universidade do Minho, Braga (Tese de Mestrado).

domingo, 9 de novembro de 2014

Sociedade da Informação: Um repensar sobre a educação no séc.XXI

A partir do séc. XX, verificou-se um grande desenvolvimento da economia, tecnologia e área social. Um mundo onde o fluxo de informações é intenso, em constante mudança, e “onde o conhecimento é um recurso flexível, fluído, sempre em expansão e em mudança” (Hargreaves, 2003:33).
Assim, devido ao facto de se reconhecer que o mundo se encontra cada vez mais marcado pela complexidade, pelo caos e sob os efeitos da globalização, torna-se urgente a necessidade de organizá-lo, e este último, será realizado por sistemas. Segundo Rosney sistema é “um conjunto de elementos em interação dinâmica, organizados em função de um fim”.
Na educação, os Sistemas Educativos têm se revelado os grandes impulsionadores de desenvolvimento humano. No entender de Ramos (2007), o sistema educativo deve organizar-se de modo a poder educar os cidadãos, de acordo com as suas caraterísticas socioeconómicas e culturais, concedendo-lhes um ensino universal e proporcionando-lhes, ao mesmo tempo, a igualdade de oportunidades, preparando os cidadãos para a constante mutação na inovação/evolução, do progresso tecnológico, fruto da globalização. As tecnologias digitais e a Internet despoletaram um novo paradigma social, enunciado por diversos autores, como sociedade da informação ou sociedade em rede alicerçada no poder da informação (Castells,2003), sociedade do conhecimento (Hargreaves,2003) ou sociedade da aprendizagem (Pozo,2004).
Um dos primeiros autores a referir o conceito de Sociedade da Informação (SI) foi o economista Fritz Machlup, no seu livro publicado em 1962, The Production and Distribution of Knowledge in the United States. Contudo, o desenvolvimento do conceito deve-se a Peter Drucker que, em 1966, no bestseller The age of Discontinuity, fala pela primeira vez numa sociedade pós industrial em que o poder da economia- que, segundo o autor, teria evoluído da agricultura para a indústria e desta para os serviços- estava agora assente num novo bem precioso: a informação.
 A ideia que se encontra subjacente ao conceito de Sistema de Informação é, claramente, o de uma sociedade que se encontra mergulhada num processo de constante mudança, fruto dos avanços tecnológicos e científicos. Através da disseminação da leitura e da escrita, a imprensa revolucionou a forma como as pessoas aprendem. O aparecimento das tecnologias da informação e comunicação tornou possível novas formas de acesso e distribuição do conhecimento. Estamos perante uma era onde não existem barreiras de tempo e de espaço para as pessoas se comunicarem.
Segundo Manuel Catells (1999) a revolução tecnológica originou o informacionalismo, tornando-se, este último, na base desta sociedade renovada, onde os valores da liberdade individual e da comunicação aberta se assumem como supremos. Na linha de pensamento do autor, no informacionalismo, as novas tecnologias assumem um papel fundamental em todos os segmentos sociais, levando a um melhor entendimento da estrutura social atual- sociedade em rede - e, por conseguinte, de uma nova economia, perante a qual a tecnologia da informação se apresenta como ferramenta essencial na manipulação da informação e construção do conhecimento pelos indivíduos, pois “a geração, processamento e transmissão de informação torna-se a principal fonte de produtividade e de poder” (Castells,1999:21).
Tomando como referência este contexto, o autor Manuel Castells (2002), destaca como principais caraterísticas deste novo paradigma, as seguintes: 1) a informação é a sua matéria prima (existe uma relação entre a informação e a tecnologia, ou seja, uma complementa a outra); 2) capacidade de penetração dos efeitos das novas tecnologias (remete-nos para o poder que os meios tecnológicos exercem na vida social, política e económica de uma determinada sociedade); 3) lógica de redes (facilita a interacção entre os cidadãos, podendo ser utilizada em todos os tipos de organizações e processos, graças ao aparecimento das novas tecnologias da informação); 4) flexibilidade (refere-se ao poder de reconfigurar, alterar e reorganizar as informações); 5) convergência de tecnologias específicas para um sistema altamente integrado ( a existência de um processo contínuo de convergência entre os diferentes campos tecnológicos, resulta numa lógica comum de produção da informação, onde todas as pessoas que os utilizam podem contribuir e, por sua vez, exercer um papel ativo na produção desse conhecimento). Todas estas características, acima referidas, encontram-se estritamente ligadas ao processo de democratização do saber, nascendo, então, novos espaços para busca e partilha de informações.
Perante tudo isto, podemos levantar a seguinte questão: Qual a finalidade dos sistemas educacionais em pleno séc.XXI?
Ramos (2007) refere que: “os sistemas educativos terão de ser flexíveis, ter capacidade de adaptação à mudança constante, sendo proativos e capazes de utilizar, na sua máxima extensão, todas as possibilidades conferidas, pelas tecnologias da informação e da comunicação”.
Segundo a Lei nº46/86 de Bases do Sistema Educativo Português (LBSEP) o sistema educativo responde às necessidades resultantes da realidade social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e harmonioso da personalidade dos indivíduos, incentivando a formação de cidadãos livres, responsáveis, autónomos e solidários, valorizando a dimensão do trabalho.
A verdadeira essência dos sistemas educacionais encontra-se em garantir a primazia na construção do conhecimento, nesta sociedade marcada por um fluxo de informação abundante. Neste contexto, o papel do professor modifica-se abrindo caminho para um novo tipo de aprendizagem. Se antigamente o papel do professor era o de transmissor de conhecimento, agora é o de mediador da aprendizagem. Esta aprendizagem salta os muros da escola, pois não acontece necessariamente nas instituições escolares, podendo realizar-se nos mais variados contextos informais pelo meio de conexões na rede global.
Assim, sendo os sistemas educativos os grandes impulsionadores do desenvolvimento humano, apresenta-se como necessário um repensar em relação aos modelos educativos, para que os alunos sejam capazes de pensar, refletir de uma forma autónoma, no sentido da construção de um pensamento próprio e, é nesta medida, que o recurso à tecnologia se torna num elemento determinante face à criação de novos modelos educativos. Como afirma Takahashi (2000:7), “A dinâmica da sociedade da informação requer educação continuada ao longo da vida, que permita ao indivíduo não apenas acompanhar as mudanças tecnológicas, mas sobretudo inovar”.
Perante este novo cenário, a integração curricular das TIC pode contribuir para que sejam utilizados nos espaços formais de educação, estratégias pedagógicas significativas tanto para o aluno como para a comunidade escolar. Isto, implica que se aposte na formação pedagógica e tecnológica dos docentes.
A meu ver, por vezes, é extremamente complicado mudar ideias/pensamentos, a mudança nunca foi fácil numa sociedade. Hoje em dia, continuamos a encontrar professores com ideias ou atitudes diversas em relação à utilização das novas tecnologias. Uns olham para elas de uma forma renitente, outros utilizam-nas no seu dia a dia, contudo, não sabem enquadrá-las ao nível profissional. Por fim, encontramos alguns professores que se aventuram no campo das novas tecnologias, transformando assim, a sua forma de ensinar.
Segundo Morin (1995) “As tecnologias de comunicação não mudam necessariamente a relação pedagógica. As tecnologias tanto servem para reforçar uma visão conservadora, individualista como uma visão progressista. A pessoa autoritária utilizará o computador para reforçar ainda mais o seu controle sobre os outros. Por outro lado, uma mente aberta, interativa, participativa encontrará nas tecnologias ferramentas maravilhosas de ampliar a interação”.
O problema do recurso às TIC, na minha modesta opinião, reside na confusão que existe entre a facilidade de acesso à informação e na seleção dessa informação em conhecimento. Como afirma Carneiro “(…) nenhuma geração humana anterior experimentou com tanta intensidade a consciência da ignorância”.  Para que se possa considerar a sociedade de informação como uma sociedade do conhecimento torna-se, fundamental, que se estabeleçam critérios de organização e seleção de informação, de forma às pessoas não serem influenciadas ou moldadas pelos constantes bombardeamentos de fluxos informativos disponíveis. A grande batalha que agora se trava, é no sentido da existência de dois grandes aliados no desenvolvimento do conhecimento e no reforço das aprendizagens, por um lado, a tecnologia e, por outro, a metodologia.
É nesta medida, que a escola terá obrigatoriamente que se preparar para responder às novas situações geradas pelas evoluções tecnológicas. Uma vez que estas colocam grandes desafios ao sistema educativo e a todos os intervenientes no processo.
Perante tudo o que foi explanado, podemos afirmar que não se pode pensar a educação desligando-a das evoluções sociais que lhe estão subjacentes. A educação é produto da história de uma sociedade, apresentando-se ao mesmo tempo, como um factor essencial para o seu futuro. Vivemos numa sociedade rica em informação e impulsionadora de conhecimento. Os métodos de ensino/aprendizagem necessitam de uma renovação, nascendo então, uma nova forma de aprender, onde as novas tecnologias e a educação se complementam!



Bibliografia:
Castells, Manuel. (1999). A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, vol. 3. São Paulo: Paz e terra.
Castells, Manuel. (2002). A Era da Informação: economia, sociedade e cultura, vol.1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Delors,J., Al-Mufti, I., Amagi, I., Carneiro, R., Chung, F., Geremek, B., w tal (1998)- Educação Um Tesouro a Descobrir- Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. Porto: Edições ASA.
Hargreaves, Andy. (2003). O Ensino na Sociedade do Conhecimento: a educação na era da insegurança. Colecção Currículo, Políticas e Práticas. Porto: Porto Editora.
Pozo, Juan Ignacio. (2004). A sociedade da aprendizagem e o desafio de converter informação em conhecimento. In: Revista Pátio. Ano VII – nº31 – Educação ao Longo da Vida.
Ramos, C. (2007). Sobre o conceito de sistema e Aspetos contextuais dos Sistemas Educativos.

Takahashi, Tadao (Org) (20009. Sociedade da Informação no Brasil: Livro Verde. Brasília: Minestério da Ciência e Tecnologia. Disponível em: http://www.instinformatica.pt/servicos/informacao-e-documentacao/biblioteca-digital/gestao-e-organizacao/BRASIL_livroverdeSI.pdf. Acedido em: 24/10/2014 

sábado, 18 de outubro de 2014

“…a filosofia exige que tudo o que a sua própria racionalidade não compreende seja questionado. A pretensão filosófica de não saber nada não passa de um convite a pensar, pensar “em conjunto”, pensar uns com os outros. 
“Um treino filosófico” leva à seguinte inscrição: 
“ Vem, pensa comigo, encontraremos juntos a verdade”.

                                                                                              (Agnes Heller)